O efeito multiplicador das PMEs
Pequenas e médias empresas reúnem uma das maiores oportunidades de geração de valor para o mercado financeiro
Marcela Pinori, vice-presidente de Soluções Comerciais da Visa do Brasil
Nos últimos anos, o setor financeiro brasileiro passou por uma profunda transformação. A digitalização dos serviços, a consolidação dos pagamentos eletrônicos, o fortalecimento das fintechs e a incorporação de novas tecnologias elevaram o nível da experiência oferecida aos clientes e ampliaram a competitividade do mercado.
Nesse contexto, uma questão ganha cada vez mais relevância: onde estão as próximas oportunidades de crescimento para as instituições financeiras?
Parte dessa resposta passa pelas pequenas e médias empresas. Embora frequentemente sejam lembradas pela sua importância para a economia e para a geração de empregos, seu potencial para impulsionar resultados no setor financeiro ainda é subestimado. Mais do que ampliar a base de clientes, o desafio está em construir relacionamentos mais profundos e relevantes com quem empreende.
Os dados ajudam a dimensionar essa oportunidade. Segundo o estudo global The Multiplier Effect: Visa 2026 Small Business Banking Report, realizado pela Visa em 17 mercados, as PMEs geram cinco vezes mais receita para os bancos do que clientes pessoa física. No Brasil, esse potencial é ainda maior: cada relacionamento com uma pequena ou média empresa gera, em média, 10,7 vezes mais receita para as instituições financeiras, colocando o país entre os mercados com maior capacidade de geração de valor nesse segmento.
Esse cenário evidencia que uma PME não representa apenas um cliente empresarial. Ao longo de sua trajetória, ela demanda soluções para gestão financeira, pagamentos, crédito, capital de giro e expansão dos negócios. À medida que essas necessidades evoluem, aumenta também a oportunidade para que instituições financeiras fortaleçam sua presença na jornada do empreendedor.
Nesse processo, os meios de pagamento ocupam um papel estratégico. O estudo mostra que produtos relacionados a cartões respondem por 44% da receita bancária proveniente das PMEs. Na América Latina, empresas que utilizam cartões corporativos geram quase 79% mais receita para os bancos do que aquelas que não utilizam esse meio de pagamento, e contratam um volume significativamente maior de produtos financeiros. Mais do que um instrumento de pagamento, o cartão pode representar o início de um relacionamento financeiro mais amplo.
Ao mesmo tempo, a digitalização das transações amplia a disponibilidade de informações sobre a dinâmica dos negócios. Dados provenientes dos pagamentos ajudam instituições financeiras a compreender melhor o fluxo financeiro das empresas, desenvolver ofertas mais aderentes às suas necessidades e aprimorar processos como análise de crédito e gestão de risco. Em um ambiente cada vez mais orientado por inteligência artificial e análise de dados, esse conhecimento tende a se tornar um diferencial competitivo importante.
Outro desafio está na forma como esse mercado é atendido. Muitos empreendedores ainda administram recursos pessoais e empresariais de maneira integrada, refletindo uma jornada financeira que nem sempre se encaixa em modelos tradicionais de segmentação. Desenvolver uma visão mais completa desse cliente pode contribuir para relações mais duradouras e para uma oferta de soluções que acompanhe a evolução do negócio desde seus primeiros estágios.
Também é importante reconhecer que o universo das PMEs é diverso. Empresas de diferentes setores apresentam necessidades, comportamentos e níveis de maturidade distintos. Construção, manufatura, comércio, alimentação e hospedagem, por exemplo, convivem com desafios específicos, o que reforça a importância de soluções cada vez mais especializadas e alinhadas às características de cada segmento.
A transformação digital abriu novas possibilidades para consumidores e empresas em todo o sistema financeiro. O próximo passo é ampliar essa evolução para fortalecer o relacionamento com as pequenas e médias empresas, reconhecendo seu papel não apenas como clientes, mas como agentes centrais do crescimento econômico. Afinal, à medida que o setor financeiro constrói soluções capazes de acompanhar a evolução dos empreendedores, cria-se um ciclo em que inovação, desenvolvimento e geração de valor avançam juntos.
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